domingo, 4 de outubro de 2009

ódio

As unhas muito curtas cuidadosamente encaixadas nas mãos brancas. A pele quente, o coração gelado, impalpável, e capacidade incrível de ignorar completamente o que eu dizia.
A falta de seriedade, o ar zombeteiro, o olhar gélido, as opiniões maldosas.
A música que me obrigou a ouvir todos os dias, a hipótese de aventura, de quebrar regras que sequer existem, a cura.
E agora? Agora é nada.
Foi bastante, mas me arriscar não valeu a pena. Se eu pudesse quebraria sua cara, colocaria fogo em você.
Foda-se!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Opaca

Das perguntas que não cessam, da face que não reconheço nas fotografias, dos olhos que não encaro no espelho, das mãos inquietas, pernas compridas, contradições sequenciais, matérias que me fazem mas não me completam.
Do medo da reprovação familiar, de perder os poucos laços que me restaram, da fobia social, dos pensamentos ilícitos, das atitudes supreendentes. Não me conheço, só sei o que sinto ao sentir, não é o tipo de coisa que posso prever.
A pouca graça que a vida me concede é surpreender-me a mim mesma. Se acabo com isso, prefiro a morte (aliás quase sempre prefiro a morte). Gosto de me estranhar, essa é a razão de eu não olhar em meus olhos. Não quero saber mais sobre mim.
Sou feia, um tanto maldosa, egoísta, hipócrita, despida de moral e vazia. Isso vejo, e basta! Resta um mar de coisas inexploradas em quem sou por mim mesma.
Não me testo mais.
Posso conhecer meu sexo, mas não meu gosto. Desvelar meu passado e, não ver meus pensamentos. Delinear meu corpo, e só imaginar minhas costas.
Ser transparente não me interessa!

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Viver não é o tipo de atividade que me atrai.
Simplesmente não faz sentido algum levantar com o sol e me ocupar com uma série de coisas se não tenho planos para o futuro. A morte me parece algo extremamente tentador, sorte de poucos.
Morrer deve ser delicioso, um sono sem sonhos. Sentir aos poucos os fios de vida saindo do corpo, como cabelos que desbotam lentamente quando se envelhece, as vistas que ficam escuras como quando se está entorpecido, e o ar que se torna escasso gradativamente como meu fôlego de fumante.
Se eu pudesse, viveria todos os momentos de uma vez, para evitar ausência de sentimentos que não consigo ter. É, eu sinto falto de sentir. Como uma velha cética e cansada, enquanto os outros irradiam luz por aí.
Sempre me doeu não saber agir com desprezo diante das coisas. Viver sempre foi algo insuficiente para mim.

Entre tantas e outras me inventei,
no excesso, na inexistência,
no insuportável, no convidativo,
no amoral.
Desgrenhada, descabida
uma dose desmedida de bebida verde
e minha fútil experiência espiritual.

De tão desinteressante que sou, me tornei uma raridade.
Mil vezes várias gentes num dia só.

Quem escreveu essa bobagem?
Você, disse o espelho.
Quem sou eu?
Você.
Quem é você?
Você.






Não sei viver se não for intensamente. A dor é invalida se não for total.
O grito é mudo se não for ensurdecedor.
Sorrir não é gratificante se não for um riso escancarado.
É preciso entrega, e para tal, conhecer-me.
Desvelar cada canto da minha alma.
Remexer nas velharias escondidas, relembrar todos os sabores que provei,
desejar o que ainda desconheço.

Depois de descoberto, consciente dos perigos e vantagens de ser quem sou
dos limites que me pertencem e de aceitar a invasão do mundo externo ao meu,
Estarei pronta para não me entregar totalmente.

Viver minha solidão com imensa sede, tem me bastado.
Porque solidão nada mais é que viver consigo mesmo
por isso tanta gente repudia ficar desacompanhado.
Encarar-se dói.
A mim, dói mais ver os outros.
Me acostumei com minha cara, minha forma, minha feiúra.
A dos outros, por vezes me fere.

Assumir-se é perigoso
Mas preciso disso, cada dia mais
Entregar-me a mim mesma, viver só, sentir como é ser quem sou
gostar de ser assim, mesmo que eu não saiba com exatidão que 'assim' é esse.
Saber, e depois ser.
Depois de ser? Não sei, talvez me espalhe por aí,
me divida com alguém, até ser completa, sou só minha.
Assim, sendo quem sou, não me perco, nunca mais!

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Hoje, mesmo que só hoje, eu poderia abraçar o mundo inteiro.
Poderia ir embora, viajar, andar pra longe e não voltar mais, ou voltar, por que não?
O fato é que poderia ir pra bem longe, beijar a vida, conhecer cada fala e cada olhar, apreciar todos os gestos e depois voltar pra quem sou.
Ou me perder por ai, possivelmente ser uma nova pessoa.
Mudar mais uma vez, o que é mais uma vez pra quem já mudou milhões?
Mas hoje, e amanhã vou ficar bem aqui, pensar em tudo que vou viver depois,
viver pouco e contidamente da forma que se deve ser.
Porque para ser vivo precisa-se de ser contido primeiro.
Mesmo que eu não queira, mesmo que precise me perder pra me sentir inteira.
Vou ficar presa toda dentro de mim, sem que nenhuma parte saia,e depois
Depois vou ser completa pelas metades, vou deixar metades por todos os lados
metades de metades, terços, quartos,
E assim vou ser todo o mundo, todo mundo e tudo mais que houver.
Vou me perder, perder muito, vou dizer tudo que vejo exatamente como quero dizer
E fazer com que enxerguem como eu, vou gravar olhares, mãos e gestos.
Eterniza-los.
E quer saber, vou escrever até que meus dedos caiam, e não ligo se não sou mestre em retórica,
concordânca, se me esqueço de regras de gênero, número e grau.
Vou ser, escrever, fotografar.
Pra sempre, até o último fôlego, viver de dizer, como eu sempre quis.
Mas hoje? Hoje vou voltar pro meu mundo e firmar meus pés nos chãos
deixar que só o pensamento divague. Vou andar pelas ruas com sapatos que cansam meus pés,
me sentar em uma cadeira de frente a um computador e ouvir tudo o que têm a me dizer pelos malditos fones de ouvido.
Amanhã também será assim, mas e depois?
Eu sou covarde, mas não uma covarde qualquer. Uma covarde acima de qualquer limite de covardia. Tão covarde, mas tão covarde que não consigo encarar as coisas como elas são. Tudo parece doer quando analisado de perto, tudo faz sofrer se for realmente observado. E sabe qual o problema? eu não sei olhar pela metade, ou vejo tudo, ou não vejo nada. E como ver dói tanto, procuro fulgas, modos de ficar mais cega, de ver menos, sentir menos, drogas pra me causar apatia, ou um pouco de felicidade, que seja. As relações parecem tão superficiais, e as pessoas são descartáveis, substituíveis. Inclusive eu. Viver em ecstasy as vezes cansa, mas lucidez me faz um mal maior que cansaço. Falar sobre os outros é simples, analisar e entender todo mundo, todo o mundo, é tão banal. Agora dizer o que vejo, como vejo, o que sinto, como e tentar explicar os motivos desse turbilhão de coisas é impossível, meu sonho impalpável, assim como todos os outros que tive um dia. Não sou uma covarde qualquer, sou A covarde